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O ALFAIATE SIM-SIM E O SAPATEIRO NÃO-NÃO

 

 

 

Numa pequena aldeia viviam, uma vez, um alfaiate

e um sapateiro. Suas casas ficavam uma defronte

da outra, na mesma rua. O alfaiate era um homem

muito simpático, com um grande bigode preto. As

pessoas o chamavam de Sim-Sim, porque ele dizia

sempre: .Sim, sim, bem o creio!.

O sapateiro, em troca, era chamado de Não-Não,

porque se alguém lhe pedia um favor, Me respondia

logo: .Nao, não, de maneira alguma!.

Era baixo e feio, e uma comprida barba lhe cercava

todo o rosto. Ele a acariciava muito satisfeito.

Os dois eram bons amigos, apesar de o alfaiate

estar sempre satisfeito e alegre, e o sapateiro não

parar um momento de resmungar.

Passavam o dia inteiro trabalhando à porta de suas

casas. O alfaiate com sua agulha e sua tesoura,

assobiando uma alegre canção. O sapateiro

martelando as solas dos sapatos. Cada martelada

era acompanhada de uma praga. De cada vez que

pregava um prego no couro, ele soltava uma

blasfêmia.

Um dia houve um grande incêndio na aldeia, e

foram destruídas muitas casas, entre elas a do

alfaiate e a do sapateiro. Então eles resolveram

viajar e ir ganhar a vida em outro lugar. Fizeram

uma trouxa com o que lhes restavam, e, com as

ferramentas do seu ofício, puseram-se a caminho.

Atravessaram muitas cidades e povoados,

costurando a roupa dos outros e remendando seus

sapatos.

Uma tarde, cansados e famintos, chegaram a uma

pousada solitária que ficava a beira da estrada.

Perguntaram ao hospedeiro se havia algum trabalho

para eles. Em troca do serviço eles pediam apenas

alguma coisa de comer e beber, e um quartinho para

dormir.

O hospedeiro aceitou a troca, e os dois amigos

trabalharam sem parar o dia inteiro. Quando

acabaram, cada um se retirou para o seu aposento

e se deixou cair, exausto, na cama.

Antes de dormir o sapateiro resmungou qualquer

coisa contra a miséria do mundo, onde era tão

difícil se ganhar a vida. Depois fechou as olhos e

dormiu pesadamente. Mas de súbito ouviu um

rumor, e teve a impressão de que alguém o estava

chamando, da janela. Levantou-se depressa para

ver quem perturbava seu repouso. No peitoril viu

uma galinha, que batia de leve com o bico nas

vidraças.

- O que tu queres, bicho impertinente? - perguntou

o sapateiro puxando a barba. - Não podes deixar a

gente descansar?

- Perdoe, Sr. Sapateiro desculpou-se a galinha. -

Estou aqui com um ovo um pouquinho rachado, e

não consigo chocá-lo. Faça o favor de lhe par um

remendo, e eu pagarei o seu trabalho.

- Não, não, de maneira nenhuma! - respondeu o

sapateiro, fechando furioso a janela.

O alfaiate também estava deitado, a antes de

meter-se no cama cantarolou uma alegre canção.

Tal como o seu companheiro, também ouviu as

pancadinhas na vidraça. Correu a janela, e quando a

abriu viu a galinha.

- Par favor, Sr. Alfaiate - cacarejou a ave. - Quer

cerzir um ovo que tenho aqui, para que eu possa

chocá-lo?

- Sim, sim, agora mesmo! - respondeu Sim-Sim,

acariciando o bigode.

Vestiu-se depressa e sem perder um minuto enfiou

a agulha.

- Onde está o ovo? - perguntou.

A galinha procurou embaixo de uma asa e tirou um

ovo dourado, que estava ligeiramente rachado.

- Que beleza! - exclamou assombrado 0 alfaiate. - É

pena estar rachado! Vamos consertá-lo, já !

Como era um alfaiate muito habilidoso, num

instante consertou o rachado, e o fez tão bem que

mal se percebia o cerzido.

A galinha bateu alegremente as asas e disse:

- Mestre, agradeço-lhe de todo o meu corarão.

Quanto lhe devo?

- Ora! Isso não custa nada! - replicou o alfaiate. -

Trate de chocar direitinho esse lindo ovo, e não se

preocupe.

- Está bem, - respondeu a galinha - mas sua

gentileza merece um prêmio. Como deve ter

notado, este ovo não é igual aos outros. A fada

Ametista, que auxilia e protege os seres humanos,

foi que o entregou a mim, para chocar. Um

geniozinho bom sairá dele, e lhe oferecerá seus

serviços sempre que o senhor precisar. Está claro

que será apenas por motivos sérios! O espírito não

pode suportar a falsidade nem o mal. Quando

precisar, basta dizer: .Clic!. Então, quando ouvir que

ele responde: .Cluc!., será sinal de que está

disposto a ajudá-lo. Se não responder, é porque seu

pedido não serve, e portanto não deve esperar a

menor ajuda. Adeus, bom homem, e não esqueça as

palavras .clic. e .cluc..

Alegremente o alfaiate se meteu no cama e dormiu

até surgir o sol.

No outro dia os dois companheiros prosseguiram

sua viagem. Iam atravessando um frondoso bosque

quando, de repente, ouviram um terrível grunhido, e

um enorme urso apareceu na frente deles e os

olhou fixamente.

O sapateiro soltou uma porção de pragas e puxou a

barba.

O urso, pensando que aquele homem tão cabeludo

também era urso, se voltou para o outro lado,

encontrando-se na frente do alfaiate, que nestas

horas não sorria mais. Quando o urso se preparou

para atacá-lo, o alfaiate gritou: .Clic!., a como um

eco chegou a resposta: .Cluc!.

No mesmo instante o enorme urso recebeu na

cabeça uma pancada tão forte, que ficou surdo e

cego, de uma só vez. Caiu ao chão, enquanto o

alfaiate acariciava tranquilamente o bigode.

O sapateiro havia fugido a toda pressa até o

próximo povoado, e quando chegou sentou-se à

porta da primeira hospedagem que encontrou,

murmurando:

- Bem feito para o alfaiate! Para que ele ri sempre

das pessoas e dos animais?

Mas naquele preciso instante apareceu o alfaiate,

são e salvo. O sapateiro ficou com os olhos do

tamanho de duas laranjas, e não pode deixar de

sentir um profundo respeito pelo seu valente amigo.

Pouco depois os dois caminhantes chegaram junto

de uma cabana. Chamaram, da porta, e ofereceram

trabalho em troca de cama e comida.

Aconteceu que naquela cabana vivia um ladrão feroz

com sua mulher. Vendo, os dois companheiros, o

homem começou a rir e exclamou:

- Ôba, que pássaros nós caçamos! Dêem-me

depressa o que carregam no corpo, senão lhes corto

a cabeça!

E sem esperar que os dois pobres caminhantes

obedecessem, lhes esvaziou os bolsos e as

mochilas, só deixando as ferramentas de trabalho.

- Agora vão fazer roupas e sapatos para minha

mulher e para mim! - disse.

Sim-Sim e Não-Não tiveram de sentar e começar a

coser e martelar o mais depressa que podiam.

Quando chegou a noite, não ganharam nada de

comer nem de beber, e os dois sentiram uma forte

dor de estômago.

- Estamos com fome, Sr. Ladrão! - disse o

sapateiro, aborrecido. - Dê-nos alguma coisa de

comer!

- Cala-te e trabalha! - exclamou o brutal bandido. -

Ainda deves agradecer à tua boa estrela, se saíres

daqui com vida!

O sapateiro resmungou e continuou a bater os

pregos. Mas o alfaiate se zangou com aqueles

maltratos. Puxou o bigode, muito decidido, e disse:

- Todas as pessoas que trabalham têm direito a um

salário, e os estômagos vazios não podem dar

agilidade as mãos!

- Insolente! - gritou o dono da casa. - Vou dar-te

uma lição, que nunca mais esquecerás! - e agarrou

um grosso chicote. Sua mulher, vendo isto, também

pegou uma vassoura, e foi a primeira a agredir o

alfaiate. Este, cheio de coragem, gritou:

- Isto eu não posso tolerar! Agora verão que não se

deve insultar assim duas pessoas honrados!

Sim-Sim pensava que Não-não o ajudaria, mas o

sapateiro, em vez de correr para o lado do amigo,

disse apenas:

- Não, não, de maneira nenhuma!

Mas o alfaiate não lhe deu importância, e com voz

bem clara, gritou:

- Clic!

E de outra extremidade chegou uma vozinha que

disse:

- Cluc!

O chicote e a vassoura foram arrancados das mãos

dos que os empunhavam e descarregados com

tremenda força na cabeça do ladrão e da mulher

dele, até os dois caírem no chão sem sentidos.

Então os viajantes apanharam o que lhes pertencia,

puseram tudo nas mochilas e abandonaram a

cabana tão pouco acolhedora. Depois disto o

sapateiro passou a sentir ainda maior respeito pelo

amigo.

Diante deles estendia-se um enorme e escuro

bosque.

Os dois ignoravam que ali se alojava o terror da

região, o medonho Gatofero Bruxobruxo. Se

soubessem, nunca teriam penetrado ali!

Gatofero Bruxobruxo tinha uma cabeça tão grande

que parecia uma catedral, e suas garras pareciam

sabres de cavalaria. Dos olhos dele brotavam

terríveis chamas, que incendiavam as casas e as

árvores. Cada ano comia doze cavalos e doze

cavaleiros. O rei era obrigado a mandar-lhe esses

cavalos e esses cavaleiros, senão Gatofero

Bruxobruxo queimava com os olhos a cidade e todas

as aldeias do reino.

Quando os dois amigos chegaram ao centro do

bosque, ouviram um roncar e uns miados, que

davam a impressão de que ali viviam cem mil

gatos.

Imediatamente dispararam sobre eles um raio de

fogo. Não os alcançou, e não fez mais do que atear

fogo numas árvores, que no mesmo instante foram

reduzidas a cinzas. Depois a cabeça de catedral de

Gatofero Bruxobruxo apareceu por trás das árvores

que ainda estavam de pé.

- Não, não! - gritou o sapateiro, dominado pelo

terror, e se escondendo atrás de uns arbustos. Em

troca o alfaiate exclamou:

- Fera perversa! Para que puseste fogo numas

árvores tão bonitas? - E em seguida acrescentou: -

Agora vais ver uma coisa! Clic!

Logo veio a resposta:

- Cluc!

Uns punhos de ferro começaram a esmurrar

Gatofero Bruxobruxo na cabeça e nos olhos,

impedindo-o de emitir raios de fogo. Por fim o feroz

animal caiu morto aos pés de Sim-Sim, que em

seguida ajudou seu companheiro o sair do lugar

onde estava escondido.

- Vamos - disse ele a rir. - Já acabamos com ele.

Não queimará mais nenhuma árvore!

- Sim, acabamos com ele - disse o sapateiro, que ia

recobrando pouco a pouco a coragem, vendo que

Gatofero estava mesmo morto. - Vai na frente,

amigo Sim-Sim; eu quero examinar bem esta fera, e

depois te alcançarei.

Depois que o alfaiate saiu, o sapateiro puxou uma

faca e cortou os bigodes de Gatofero Bruxobruxo,

embrulhando-os num grande lenço vermelho. Ao

mesmo tempo dizia consigo: .Alfaiate imbecil!

Esqueceu-se de levar o troféu da vitória! Já que ele

não o fez, o farei eu! Talvez me sirva para alguma

coisa. . . .

Depois saiu correndo atrás do alegre alfaiate, que

seguia cantando e assobiando.

Dali a pouco tempo chegaram a uma grande

cidade, onde vivia o Rei daquela nação. Era um Rei

muito trabalhador, que passava o dia inteiro

governando e era tão enérgico que chegava a

carregar a coroa para a cama, a fim de continuar

governando enquanto dormia. Nunca tirava férias.

Até nos domingos e nos dias feriados governava

com todo o seu poder. Era um Rei muito bom e

muito feliz.

Mas tinha um sofrimento, uma grande tristeza. Sua

filha, Solimunda, não queria casar. Por melhores que

fossem os rapazes que aparecessem para pedir sua

mão, ela dizia sempre:

- Não, não o quero; ficarei solteira.

O monarca trabalhador acabou se aborrecendo de

verdade, a atirou sua coroa ao chão com tamanha

força, que o diamante grande que a enfeitava

saltou do engaste.

- 0 que queres afinal? - perguntou ele tremendo de

raiva. - Como tem de ser um homem, para que

aceites casar com ele? Se não o disseres depressa,

eu deixarei de governar! E então verás o que será

de ti e de todo o reino.

Solimunda se assustou muito. Mas, como não

queria mesmo casar, impôs umas condições tão

difíceis, que ninguém poderia ter todas juntas.

- Aceitarei por marido o homem mais corajoso, mais

feliz e mais bonito da terra. Além disto, -

acrescentou - tem de ter o bigode branco.

A esperta princesinha pensou que, se por acaso

aparecesse o homem mais feliz e mais bonito da

terra, tinha de ser, por força, ainda moço, e,

portanto, seu bigode não podia ser branco. Assim

ela não seria obrigada a casar com ele, e o pai não

diria nada.

0 soberano procurou por todos as cantos um homem

que reunisse as qualidades exigidas pela filha, mas

não conseguiu encontrá-lo. Naturalmente, ele não

podia zangar-se com a filha.

Quando os dois viajantes chegaram a cidade, se

apressaram a ir ao palácio real.

- 0 senhor precisa de alguma roupa? - perguntou o

alfaiate ao mordomo.

Ao mesmo tempo o sapateiro também perguntou:

- Precisa que lhe faça uns sapatos?

- Fora daqui! - gritou o criado. - Na corte temos o

nosso alfaiate e o nosso sapateiro. Se fossem bons

cozinheiros, então sim: a coisa seria diferente.

Ontem cortamos a cabeça do cozinheiro-chefe e dos

ajudantes, porque serviram a carne assada

transformada em carvão, e agora estamos em

dificuldades. 0 que respondem? Sabem cozinhar?

0 sapateiro, com um grande medo de perder a

cabeça, já ia responder: .Não, não, de maneira

nenhuma!.

Mas o alfaiate falou primeiro, e disse:

- Sim, sim, está claro que sabemos!

No mesmo instante foram contratados como

cozinheiros, e ao meio-dia iam passar pelo primeiro

exame.

Entraram na cozinha com altos gorros na cabeça e

aventais brancos, e sem a menor idéia do que

deviam fazer. 0 sapateiro só fazia por a mão na

cabeça para ver se ela ainda estava em cima do

pescoço, e o alfaiate, no entanto, se mostrava

alegre e confiante.

Quando os ponteiros do relógio começaram a

caminhar rapidamente para as doze, Sim-Sim

gritou:

- Clic!

Um momento depois, de um canto da cozinha

chegou uma vozinha que respondeu:

- Cluc!

No mesmo instante a manteiga começou a se

derreter na frigideira, os ovos foram fritos, e a

carne assou. No devido tempo apareceu na mesa

uma

saborosa sopa, sobre a qual flutuavam gotas de

gordura; um peito de galinha tão tenro que se

desmanchava na boca; uns peixes que brilhavam

como prata, e com a boca aberta como se gritassem

de alegria; finalmente, uns pastéis que estalavam,

e umas tortas cobertas com .glace. branco.

Depois que o Rei comeu todas essas coisas tão

gostosas, deu umas palmadinhas na barriga,

satisfeito, e mandou condecorar o cozinheiro com a

Grande Cruz do Ordem do Galo, enfeitada com um

estômago e um fígado.

0 mordomo levou correndo a condecoração a cozinha

e pediu ao cozinheiro que se aproximasse para ser

premiado.

- Sim, sim, já vou - disse o alfaiate.

Mas seu companheiro replicou:

- Não, não, de maneira nenhuma! - e, afastando-o

para o lado com um empurrão, foi ao encontro do

mordomo, de modo que assim foi ele quem recebeu

o prêmio, e passou por cozinheiro quando não sabia

nem fritar um ovo!

Nisto chegou o momento de entregarem a Gatofero

Bruxobruxo o tributo dos doze cavalos e doze

cavaleiros.

0 Rei, em meio dos lamentos de seu povo, mandou

as vítimas para o escuro bosque. Ali permaneceram

doze dias e doze noites, esperando, com um grande

medo, que aparecesse Gatofero Bruxobruxo e as

devorasse. Depois que transcorreu este tempo e

nada aconteceu, descobriram que o monstro estava

morto. Voltaram alegremente para junto do Rei e

lhe deram a boa nova.

0 monarca ordenou então que o arauto da cidade

anunciasse na capital e nas aldeias que o herói que

havia realizado aquela proeza, se desse a conhecer

e se apresentasse para pedir a mão da Princesa,

pois devia ser forçosamente o homem mais valente

do mundo, assim como o mais bonito e mais feliz.

Quem sabe até se ele teria bigode branco... e se

assim fosse ficariam todos radiantes!

Mas ninguém respondeu ao apelo. 0 arauto não

tinha andado pela cozinha, e por isto os dois

amigos não souberam das novidades.

Depois de esperar muito tempo, o Rei resolveu

convidar seus súditos a comparecerem diante do

trono. Queria perguntar se eles sabiam alguma

coisa sobre o herói, pois formosamente ALGUÉM

devia saber ao certo o que havia acontecido com o

monstro. Mas nem assim o soberano conseguiu

obter as informações que pedia. Ficou muito triste

e, com voz chorosa, perguntou ao mordomo:

- Todo o povo está aqui? Não te esqueceste de

ninguém?

- Em absoluto, Majestade. Todos os vossos súditos

se encontram presentes. Só faltam as dois

cozinheiros, e não os mandamos vir porque eles não

saem o dia inteiro da cozinha, e não tem nada a ver

com batalhas, nem com armas.

- Mesmo assim, eles que venham - ordenou o Rei.

E um momento depois, Sim-Sim e Não-Não, com

seus gorros e aventais brancos, entraram no salão

do trono, onde se encontravam o Rei e a Princesa,

cercados dos nobres do reino.

- Qual de voces dois prepara nossas apetitosas

comidas? - perguntou amavelmente o soberano.

O alfaiate alisou o bigode e tossiu para responder

melhor, ao mesmo tempo que dava um passo a

frente, mas o sapateiro murmurou:

- Não, não, de maneira nenhuma! - e rapidamente o

empurrou para trás. Depois mostrou a Cruz que

levava pendurada ao pescoço, e se inclinou,

dizendo: - Majestade, o cozinheiro sou eu. Este é

apenas o meu ajudante, que não faz nada, pode-se

dizer.

- Muito bem - respondeu o Rei, e apontou para a

Princesa com um gesto de mão.

Esta se levantou e todos puderam ver o quanto era

linda, com seus compridos cabelos dourados, as

faces que pareciam duas rosas, e uns olhos de

miosotis. Sua voz tinha a modulação de um sino de

prata, quando, voltando-se para o cozinheiro-chefe,

perguntou-lhe:

- Quem é o homem mais feliz desta terra?

Descaradamente, o sapateiro respondeu:

- Sou eu o homem mais feliz desta terra, porque

possuo a Grande Cruz de Ordem do Galo, com

estômago e fígado!

Todos os cavalheiros e damas começaram a rir, e o

Rei ordenou que levassem o sapateiro e lhe dessem

cem chicotadas pela sua idiotice.

Enquanto Não-Não recebia as cem chicotadas, a

Princesa mandou que o alfaiate se adiantasse, e

quando ele chegou a sua frente, perguntou-lhe:

- Quem é que tu consideras o homem mais feliz

desta terra?

O alfaiate alisou o seu negro bigode e respondeu:

- O homem mais feliz desta terra será aquele que

ganhar vossa mão, linda Princesa.

A filha do Rei gostou muito da resposta do alfaiate

Sim-Sim e lhe dirigiu um olhar de aprovação.

Naquele momento entrou o sapateiro, coçando as

costas, que lhe doíam muito, depois das

chicotadas.

- Quem é o homem mais bonito desta terra? - lhe

perguntou a Princesa.

O sapateiro estava diante do grande espelho

pendurado atrás da Princesa, e quando viu sua cara

e sua barba comprida refletidas nele, se achou

muito bonito. Deu um passo na direção da filha do

Rei e, com grande orgulho, respondeu:

- Creia que sou eu o homem mais bonito desta

terra.

Ouvindo isto, os cavalheiros e damas riram com

mais força do que antes, e o Rei mandou que o

tirassem do salão do trono e lhe dessem mais cem

chicotadas, para castigar sua vaidade.

- Quem é que consideras o homem mais bonito? -

perguntou a Princesa, voltando-se para o alfaiate.

- Aquele que mais se parecer convosco, bela

Princesa - respondeu Sim-Sim.

A jovem gostou tanto desta resposta como da

anterior.

- E conheces o mais valente deste país, ou seja,

aquele que matou o Gatofero Bruxobruxo?

- Conheço, linda Princesa, mas sou modesto demais

para dizê-lo. Perguntai a meu companheiro, e ele

vos dirá.

- Bravo, bravo! - gritaram damas e cavalheiros.

E a Princesa pensava, enquanto isto: .E. pena o

bigode dele ser preto, em vez de branco. Senão,

seria o marido mais indicado para mim..

Mas não teve tempo de pensar mais, porque o

sapateiro acabava de entrar para declarar o que

sabia sobre a coragem do alfaiate. Mancando e

gemendo, ele se adiantou até o trono.

- Dize-nos quem foi que venceu o terrível Gatofero

Bruxobruxo e livrou dele a nossa pátria!

- Fui eu que o matei, fui eu! - respondeu apressado

o sapateiro, e puxou o seu lento vermelho,

mostrando os bigodes de Gatofero.

Todos olharam para o alfaiate, que ficou vermelho

como um pimentão e gritou cheio de cólera:

- Ladrão! Patife! Ele me roubou esses bigodes! Fui

eu que os cortei do monstro e os meti no lenço!

Isto não era verdade, e só a indignação pela

falsidade de seu companheiro fez com que o

alfaiate dissesse uma mentira.

- Prova o que dizes - ordenou o Rei.

- Agora mesmo! - respondeu o alfaiate, cada vez

mais vermelho. - O ladrão caiu ao chão por si

mesmo. Esperai, e vereis! - E seguro de sua vitória,

gritou: - Clic!

Mas ninguém respondeu .Cluc..

- Clic! Clic! Clic! - repetiu, mas em vão. O sapateiro

continuou de pé, com os bigodes do monstro na

mão e o sorriso nos 1ábios.

- Encerrem no cárcere o ajudante do cozinheiro! -

ordenou o Rei, furioso. E no mesmo instante o

alfaiate foi agarrado pelas mãos fortes dos guardas

e levado para a prisão.

Logo a seguir se reuniu o Grande Tribunal, a fim de

estudar um severo castigo para o culpado. Ficou

decidido que ele seria retirado da cidade, e em

pleno campo receberia mil chicotadas, sendo

expulso para sempre do país.

Mas a Princesa rogou, suplicou e intercedeu por ele,

derramando grossas e ardentes 1ágrimas, de

maneira que os juizes perdoaram as chicotadas no

alfaiate. Ele seria apenas expulso do país.

No dia seguinte, antes da hora de ele ser expulso,

o Rei quis comer com sua filha, a Princesa, para que

a cerimonia do castigo não tivesse de ser

interrompida pela fome real. Serviram a sopa. Mas o

cozinheiro, que não sabia absolutamente cozinhar,

só fez esquentar água, e nela jogar uns pedacinhos

de couro, daqueles que e1e usava para por as

meias-solas.

- Pílulas! Pipocas! - trovejou o Rei, depois de provar

a primeira colherada; e não quis mais tomar a sopa.

- Que me tragam a carne!

O sapateiro, com sua grande faca de cortar couro,

tinha picado a carne em pedacinhos bem miúdos,

mas como não sabia assá-la, nem fritá-la, e serviu

crua!

- Isto é pele de rinoceronte! - gritou o monarca, que

mordeu uma ponto de osso, e quebrou um dente. -

Dêem esta porcaria para os cachorros! E tragam

depressa a torta de frutas!

Não-Não, ao preparar as tortas, tinha posto mais

água do que farinha, e como não pode conseguir

que a massa ligasse, pôs dentro uma grande

quantidade de cola de sapateiro, fazendo uma

pasta horrível, que ele recheou de frutas com os

caroços, laranjas por descascar, e amêndoas e

avelas também com a casca.

- Presas de elefante e espinhos de ouriço! - grunhiu

o Rei, batendo com a sua coroa na mesa. - Atirem

este lixo pelo janela e me tragam imediatamente

esse estúpido cozinheiro! Eu lhe ensinarei a

cozinhar!

Quando o sapateiro, a tremer, chegou a presença do

Rei, caiu de joelhos e juntou as mãos.

- Majestade, tudo isto a culpa do meu antigo

ajudante - disse ele. - Antes de ir para o cárcere ele

enfeitiçou a comida que até agora, como Vossa

Majestade sabe, eu soube fazer tão bem. Castigai-o

de verdade! Se quiserdes, eu mesmo o executarei.

Assim Vosso Majestade não terá mais motivo para

se queixar do meu serviço.

Pela segunda vez reuniram o Grande Tribunal, e o

alfaiate foi condenado a morte.

No domingo, à saída da missa, ele seria enforcado

na praça pública, a vista de todo o mundo, e o

cozinheiro seria o carrasco. Isto serviria de exemplo

para todos os mentirosos, todos os maus e todos

os feiticeiros!

A Princesa intercedeu por ele, mas não adiantou

nada. O pobre alfaiate, no cárcere, havia refletido

sobre a sua culpa, e seu coração estava cheio de

amargo arrependimento. Quando leram para ele a

sentença de morte, derramou muitas 1ágrimas; não

por covardia, mas pela mentira que havia dito.

Estava disposto a morrer, contanto que lhe

perdoassem aquela falta. E até o domingo ficou

ajoelhado em sua prisão, chorando e fazendo

orações a Deus. Durante todo este tempo não

provou comida nem tomou uma gota de água.

Na manhã do dia marcado para a execução da

sentença, entraram no calabouço alguns soldados

armados até os dentes, e depois de lhe amarrarem

as mãos às costas o levaram para a praça onde

estava levantada a forca. Diante dele apareceu o

sapateiro, esfregando as mãos, muito satisfeito.

Em volta do cadafalso se aglomeravam os nobres,

os senhores e todo o povo. Num trono escarlate

estava sentado o Rei, e ao lado dele, em outro

trono de ouro, a Princesa. Esta segurava com a mão

direita um lencinho de renda, onde deixava cair

todas as 1ágrimas que, subindo do corarão, lhe

brotavam dos olhos.

Mal o alfaiate chegou junto da forca, o sapateiro se

preparou para lhe colocar a corda no pescoço e

puxar. Mas o pobre réu pediu licença para rezar e

pedir perdão dos seus pecados.

- Não, não; de maneira nenhuma! - gritou o

sapateiro.

Mas a Princesa, sacudindo o lenço, concedeu a

permissão, ao mesmo tempo que contemplava, com

amor, o rosto daquele que ia morrer. De repente

percebeu que alguma coisa havia mudado na

fisionomia do alfaiate, mas era tão grande a sua

tristeza, que não pode saber ao certo qual era a

mudança.

O condenado se livrou das cordas que lhe

amarravam as mãos, e pode assim juntá-las ao

peito, ao mesmo tempo que dizia em voz alta:

- Confesso que menti uma vez, e aceito com prazer

o castigo que meus pecados merecem. Adeus, belo

mundo; adeus, para aqueles que me vão ver morrer;

adeus, meu querido amigo, perdôo-te tudo quanto

me fizeste. E acima de tudo, adeus, linda Princesa,

a quem amei de todo o meu corarão. Finalmente,

peço também perdão a ti, meu sempre fiel Clic!

De repente, de outra extremidade da praça chegou

um alegre: .Cluc., o nó corrediço se apertou e um

corpo ficou balaçando no ar. Quando os assistentes

voltaram a si da surpresa que aquilo havia causado,

tiveram outra ainda maior, ao descobrirem que o

homem que estava pendurado na forca, batendo os

pés com todas as suas forças, não era mais do que

o sapateiro!

O alfaiate, que não sabia bem o que estava

acontecendo, foi carregado em triunfo até a frente

do Rei e da Princesa.

- Sê bem-vindo, herói, - disse o monarca - até que

enfim a verdade foi revelada.

Bruscamente parou de falar e olhou cheio de

assombro para o alfaiate.

- O que é isso? - perguntou. - Teu bigode ficou

branco!

- Sem dúvida foi devido a dor e ao remorso -

respondeu modestamente o alfaiate.

Então o Rei deu um salto de alegria, que fez tremer

o trono.

- Agora tudo vai bem! - exclamou. - Tu és o homem

mais valente do mundo, porque mataste o Gatofero

Bruxobruxo, e além disto estás com o bigode

branco! Se agora receberes a mão da Princesa,

serás, conforme tu mesmo disseste, o homem mais

feliz do universo. E também o mais bonito, não e?

O que dizes a isto, minha filha?

A Princesa ficou muito corada, e suavemente

replicou:

- Esse que tanto se parece comigo no coração e na

alma, há de ser igual a mim também no físico. E o

homem que se parecer comigo deve ser, como disse

o herói, o mais bonito da terra.

- Aceitas minha filha por esposa, herói? - perguntou

o Rei.

Então o alfaiate beijou a mão da bela Princesa e

sussurrou:

- Sim, sim, creio que sim!

- Muito bem! Muito bem! - gritou o Rei.

- Corramos para o banquete das bodas! Todo o povo

está convidado!

Os festejos do casamento da Princesa com Sim-Sim

duraram três dias e três noites. No quarto dia o Rei

tirou a coroa e disse:

- Já estou cansado de governar; quero tomar umas

férias. De agora em diante, jovem Rei, és tu que

governarás, e espero que sejas tão trabalhador

como eu tenho sido.

Depois disto coroou o seu sucessor.

- Sim, sim, creio que sim! - respondeu o novo Rei, e

o povo gritou a uma só voz: .Viva o Rei!.

Foram tantos e tão fortes os gritos de entusiasmo,

que se ouviram em todo o país.

FIM

 

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