Home / Histórias
Histórias
O COELHINHO ASTUTO

O Coelhinho Astuto

 

Um coelhinho que passava sempre muita fome se

metia quase todas as noites numa horta, onde

cresciam as melhores couves de todo o lugar. De

cada vez que entrava ali arrancava um pé de couve

e, carregando-o para casa, o comia muito contente.

Finalmente, as couves acharam que aquilo já era

demais, e resolveram não mais tolerá-lo. Reuniramse

e combinaram prender o ladrão e castigá-lo

severamente. Aquela que o capturasse seria

nomeada rainha das couves.

A uma hora da madrugada todas se reuniram e se

dirigiram com toda a cautela para o bosque onde

morava o coelhinho. Cercaram a floresta, de modo

que nem um rato podia escapar sem ser descoberto

por elas.

O coelhinho percebeu que não podia fugir, e decidiu

usar de astúcia. Apanhou uma agulha e linha, e ;

coseu as suas orelhas no pescoço. Depois juntou

todas as folhas que pôde e cobriu todo o corpo com

elas. A seguir, valentemente, saiu saltando como

uma rã, por cima das couves.

- Quem és tu? - perguntaram elas ao coelho.

Não me conheceis, suas couves idiotas? Eu sou a

grande rã que adivinha o tempo que vai fazer.

- E como será o dia de hoje?

Hoje o sol brilhará e fará calor.

- Por favor, querida rã, faze com que chova e sopre

o vento! Assim o malvado coelhinho terá de sair do

bosque, e poderemos caçá-lo!

- Sinto muito, mas hoje não pode ser. . . O tempo

já está seco e quase cozido. Mas amanhã, minhas

senhoras, eu lhe porei mais água, farei com que ele

fique mais leve, e não deixarei que cozinhe de todo.

Assim terão chuva.

Isto, como era natural, agradou muito às couves,

que adiantadamente agradeceram ao coelhinho.

Este soltou uma risadinha e escapuliu do bosque.

Não se passou muito tempo, as couves verificaram

que tinham sido vítimas de um logro. Raivosas;

correram atrás do coelho e o alcançaram em

pleno campo, quando ele se preparava para dormir

a sesta.

Quando o coelhinho se viu cercado de inimigos que

avançavam para ele sem lhe dar possibilidade de se

defender, estendeu-se no chão, em todo o seu

comprimento, como se tivesse morrido. Antes tinha

apanhado uma pedrinha cinzenta, que colocou em

cima do estômago. As couves se aproximaram e

cheiraram o coelhinho por todos os lados.

- Estás morto de verdade? - perguntou uma delas.

- Acho que sim - sussurrou o coelho - O caçador

malvado me deu um tiro. Ainda se pode ver a bala

que me acabou com a vida.. . - E apontou para a

pedrinha.

Ouvindo isso, as couves ficaram muito contentes,

porque o coelhinho já ia morrer, e regressaram

depressa ò horta. Naquela noite, o coelho roubou a

mais bonita de todas as couves e a devorou com

grande alegria.

As couves se aborreceram ainda mais do que antes,

e saíram de novo para capturar o coelhinho;

encontraram-no sentado ao pé de uma árvore.

Quando as viu, o bichinho trepou depressa pela

árvore e se escondeu no meio dos ramos. Mas as

couves já o tinham visto.

- Desce depressa, senão iremos buscar uma escada

e subiremos para prender-te.

Mas ele respondeu:

- Eu não sou aquele coelho que estais procurando.

Ele não vive nas árvores. Eu sou o inofensivo

esquilo, que nunca vos deu nenhum prejuízo...

Daquela vez as couves não se deixaram enganar.

- Desce, e então veremos se tu és mesmo o

esquilo!

O coelho desceu, e no mesmo instante se viu

cercado das couves. Uma delas apareceu com uma

avelã.

- Parte esta casca! - ordenaram todas a uma só

voz.

O coelho empalideceu de medo. Meteu a avelã na

boca e apertou com toda a sua força, mas não pôde

parti-la pela simples razão de que não tinha dentes

de esquilo. . .

Então as couves riram muito dele e sacudiram suas

grandes cabeças. Amarraram as patas do

animalzinho e o levaram para ser julgado. Então o

coelhinho começou a chorar ardentes lágrimas e se

preparou para deixar este mundo. Mas antes ele

pediu um favor às couves.

- Uma vez - disse ele - vi numa horta uma couve

que se sustentava no chão com a cabeça, em vez

de ser com os pés; foi a couve mais habilidosa que

já vi em toda a minha vida! Tenho a certeza de que

as senhoras poderão fazer facilmente o mesmo!

Gostaria de apreciar uma vez mais tão maravilhoso

espetáculo; depois morreria satisfeito!

As couves começaram a experimentar se podiam

ficar com a cabeça no chão, em vez dos pés, mas

todos as vezes perdiam o equilíbrio e rolavam

no solo. Seus tombos eram tão engraçados, que o

coelho, apesar da sua situação triste, ria a ponto de

estourar...

As couves acabaram ficando zangadas, e muito

coradas, gritaram:

- Isso de se equilibrar com a cabeça não é possível!

Ninguém no mundo pode fazer tal coisa!

- Se o fizerem assim, claro que não! - respondeu o

coelho. - Mas é que aquela couve inclinava a cabeça

até o chão, depois punha uma dos pernas para

cima, e a seguir a outra. Se me soltarem um

momento das minhas correntes, vou mostrar como é

que se faz!

- Está bem, - replicaram as couves- mas se não o

conseguires, terás de morrer duas vezes!

O coelhinho concordou e elas o soltaram. Quando

se viu livre, ele apoiou as quatro patas no solo, se

encolheu um pouco, adiantou a cabeça para a

frente, e de repente deu um grande solto, pondo-se

a correr!

As couves olharam uma para a outra, cheias de

pasmo, e compreenderam que mais uma vez se

tinham deixado lograr!

Mas, não se passou muito tempo, elas tornaram a

capturar o coelho. Para isso abriram um buraco no

solo, taparam-no com raminhos e folhas, e quando

o bicho foi roubar, caiu dentro do buraco e não pôde

mais sair. Depois as couves lhe amarraram uma

corda à cintura e o puxaram da armadilha. Desta

vez ele não escaparia!

- Minhas queridas senhoras.. . - gemeu o coelhinho.

- Desta vez tenho um último desejo, de verdade!

Fui educado na religião católica, e antes de morrer

queria confessar meus pecados a um padre!

- De maneira nenhuma! - gritaram as couves. - Hoje

tu não nos enganos! Serás levado imediatamente

ao jardim, e lá te fuzilarão.

No mesmo instante todas as couves se dirigiram

para o lugar indicado, arrastando o coelhinho. Este

seguiu-as humildemente, e até parecia feliz, pois

pelo caminho ia cantando:

.Atira, atira, não me matarás! Viva! viva! não me

ferirás! Em troca, eu morreria, Se numa forca me

pendurassem!.

Ouvindo-o, as couves exclamaram:

- Ah, sim? De modo que as balas não te atingirão,

não é? Pois serás enforcado! Que achas disto?

O coelho começou a chorar e a gemer.

- Tem vergonha, coelho covarde! - exclamaram as

couves. - Achas que tens o direito de dar um

espetáculo desses, só por que vamos enforcar-te? -

E continuaram a repetir: - Tem vergonha! Tem

vergonha!

O coelhinho disse então, entre lágrimas:

- Não é por mim que estou chorando, é pelas

senhoras. Uma vez uma cigana me profetizou que

todas as pessoas que me olhassem quando eu

fosse enforcado, ficariam cegas de medo, e é por

isso que sinto tanta pena das senhoras!

As couves se agitaram, muito inquietas.

- Não tem importância - disse por fim uma das mais

velhas. - Nós taparemos os olhos, e assim não

veremos quando morreres enforcado.

Ao ouvir esta solução, todas as outras couves,

loucas de alegria, beijaram a que havia falado.

Depois apanharam folhas verdes e capim, e

taparam com isso os olhos. Enquanto isto já tinham

chegado à árvore onde iam pendurar o coelhinho.

Mas como estavam com os olhos tapados, não

podiam enxergar o astucioso pecador.

- Deus meu, estou com tanto medo! - exclamava

ele.

Estás preparado? - perguntaram as couves.

Sim! - gritou o coelho. E rapidamente apanhou um

tronco que estava no chão, tirou o nó corrediço do

pescoço e pendurou nele o tronco.

- Pronto! - gritou o velha couve. E todos a um só

tempo puxaram a corda, da qual pendia o tronco.

Enquanto isto o coelhinho se afastou

silenciosamente.

Quando, depois de muito tempo, as couves acharam

que o criminoso já devia estar morto, então

destaparam os olhos.

Ao verem o tronco pendurado na corda, sentiram

uma grande raivo, porque viram que o esperto

coelhinho tinha tornado a zombar delas. Fizeram um

solene juramento de que da próxima vez,

acontecesse o que acontecesse, ele não lhes

escaparia.

Dali a mais umas horas descobriram o ladrão, que,

sentado na janela da casa dele, merendava

tranqüilamente.

- Boa tarde, senhoras couves - lhes disse ele. - Já

estão voltando da execução? Foi interessante? As

senhoras se emocionaram muito?

- Espera e verás, seu malvado! - responderam todos

a uma só voz. - Desta vez não zombarás de nós!

- Sinto muito não poder abrir a porto para convidá-

las a merendar. . . - replicou zombeteiro o coelho. -

Mas é que perdi a chave. . . E agora, adeus. Vou

para o cama descansar um pouco de tanta

execução!

E tratou de se meter no interior do seu domicílio.

As couves estavam indignadas. Colocaram

sentinelas em todos os pontos estratégicos, porque

estavam dispostas a apanhar o coelho.. . Algum dia

ele teria de sair de casa, se não quisesse morrer de

fome.

Depois de esperarem pacientemente durante várias

horas, se abriu de novo a sacada e o coelhinho

saiu, vestindo um roupão elevando na cabeça um

gorro de dormir, e fumando um comprido cachimbo.

Sentou-se numa cadeira e observou, sorridente, as

couves reunidas lá embaixo. De tanta raiva, elas

tinham ficado amareladas.

De repente, o coelho se pôs em pé de um salto e

olhou para longe, como se estivesse vendo alguma

coisa muito interessante. Depois tirou o gorro de

dormir e exclamou:

- Bom dia, Senhor Hortelão! - O que deseja? Como?

Não entendo. Ah, sim! Disse que deseja couves

paro a mesa de seu patrão? Muito bem, venha até

aqui, e encontrará todas aquelas de que precisar!

Poderá escolher as que forem mais do seu agrado,

pois tenho umas lindas!

Mal as couves ouviram isto, puseram-se o correr

com todas as suas forças, e regressaram à sua

horta. O coelho, quando as viu correrem da maneira

tão ridícula, tropeçando umas nas outros e caindo a

todo instante, desatou em ruidosas gargalhadas.

Quando as couves chegaram, sem fôlego, à casa

delas, resolveram que, dali por diante, deixariam

em paz o astucioso coelho, que em tontas ocasiões

já havia zombado delas.

FIM

 

Ver outros vídeos
Próximos Eventos
 
By Holowka Web | Copyright © 2017